Lisboa - Por ocasião do 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica celebra a 17 de maio, sob o tema «Preservar vozes e rostos humanos», D. Alexandre Palma, bispo auxiliar de Lisboa e presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais da Igreja Católica em Portugal, ofereceu à Agência ECCLESIA uma reflexão que se cruza profundamente com a mensagem do Papa Leão XIV para a mesma data.

Uma Igreja que não pode ser «veneno na conversa»

Na entrevista, o prelado repudiou com firmeza o uso de discursos violentos e de manipulação no espaço mediático, lançando um apelo à qualificação do debate público. «A Igreja se quer ser, e quer, sal da terra e luz do mundo, não pode ser meia-luz, sombra, de alguma maneira, ou ser veneno na conversa», afirmou. As suas palavras encontram eco na denúncia que o Pontífice faz, na sua mensagem, dos algoritmos que, concebidos para maximizar o envolvimento nas redes sociais, «recompensam as emoções rápidas e, ao contrário, penalizam as expressões humanas que requerem mais tempo, como o esforço para compreender e a reflexão», fechando as pessoas em «bolhas de fácil consenso e indignação».

Firmeza das convicções, sem agressividade na forma

D. Alexandre Palma alertou para a degradação das relações nas plataformas digitais, pedindo que se distinga entre a firmeza das convicções e a agressividade na forma, «muito histriónica, muito violenta, nalguns casos», de as comunicar. A «manipulação» do auditório através da distorção dos dados foi apontada pelo responsável católico como uma tática de imposição que anula a verdadeira mediação humana. «Uma coisa é defender com clareza e assertividade um ponto de vista. Outra coisa é esconder, camuflar ou adulterar determinados dados para reforçar o meu ponto de vista e, de alguma maneira, dar um simulacro de verdade a quem me escuta», sublinhou.

Também aqui o paralelismo com a mensagem papal é evidente. Leão XIV adverte que «os sistemas que apresentam como conhecimento uma probabilidade estatística, na realidade, oferecem-nos, quando muito, aproximações da verdade, que por vezes são verdadeiras “alucinações”», alimentando «uma crescente sensação de desconfiança, desorientação e insegurança».

O Evangelho como alternativa ao imediatismo algorítmico

Perante a aceleração tecnológica, que privilegia as emoções rápidas em detrimento da reflexão, o presidente da Comissão Episcopal observou que o Evangelho oferece um caminho alternativo ao imediatismo dos algoritmos sociais. «É preciso, dentro das comunidades crentes, como a Igreja, que esse contraste não seja oposição. É tempo, é sal, é fermento, é luz, é semente», precisou. Uma perspetiva que dialoga com o convite do Papa a não nos deixarmos «roubar a possibilidade de encontrar o outro, que é sempre diferente de nós e com o qual podemos e devemos aprender a confrontar-nos», recordando que «sem aceitar a alteridade, não pode haver nem relação nem amizade».

O risco do «simulacro» e a inversão entre homem e máquina

A conversa abordou também a «externalização» do processo de aprendizagem para a inteligência artificial, apontada como um risco para a preservação do pensamento crítico e da memória. «O grande risco é de vivermos um simulacro de realidade, nas suas múltiplas exceções», observou D. Alexandre Palma, alertando para o facto de a tecnologia assentar na premissa de «a máquina imitar o humano» e expor a sociedade ao risco de «o humano imitar a máquina».

É precisamente o receio que atravessa a mensagem de Leão XIV, quando denuncia o perigo de que, «ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas». O Papa adverte: «renunciar ao processo criativo e entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa enterrar os talentos recebidos».

Um desafio antropológico, não apenas tecnológico

A intervenção de D. Alexandre Palma está em plena sintonia com a tese central da mensagem pontifícia: «O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios». Para Leão XIV, a resposta passa por três pilares - responsabilidade, cooperação e educação - e por uma literacia para os meios de comunicação social, a informação e a IA que chegue a todos os setores da sociedade, dos jovens aos idosos, dos profissionais dos media aos cidadãos comuns. O 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais torna-se, assim, uma ocasião para reafirmar, com as palavras conclusivas do Papa, uma necessidade urgente: «É necessário que o rosto e a voz voltem a dizer a pessoa. É necessário preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do ser humano, para a qual também se deve orientar toda a inovação tecnológica».

p.A.L.
Silere non possum

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