Lisboa - Há uma fronteira que a política não deveria atravessar: aquela que transforma a fé em arma retórica. Quem o recordou com firmeza foi o Patriarca de Lisboa, D. Rui Manuel Sousa Valério, S.M.M., que interveio na terça-feira na conferência de imprensa de apresentação da peregrinação internacional de 12 e 13 de maio ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, à qual ele próprio presidirá.
«A instrumentalização da religião, de figuras religiosas ou de figuras marcadamente referenciais para a própria civilização - como é o caso de Jesus Cristo - para fins diferentes daqueles que consistem em promover o ser humano na sua dignidade e em interpelar o crente à conversão em vista de uma vida de santidade, é um retrocesso sob todos os pontos de vista». Palavras firmes, pronunciadas no contexto de uma pergunta que remetia para a atualidade mais sensível: o uso político do cristianismo para legitimar conflitos armados e o recente confronto verbal entre o Santo Padre Leão XIV e o presidente norte-americano Donald Trump.
A liberdade religiosa significa respeito, não apenas tolerância
O Patriarca escolheu não contornar a questão. «Quero recordar que os Estados Unidos são uma nação fundada sobre a liberdade, e o primeiro momento dessa liberdade é a liberdade religiosa», observou. Mas fez questão de precisar o sentido profundo deste princípio: «A liberdade implica respeito. Não significa apenas que uma pessoa possa praticar a sua crença: respeitá-la significa reconhecer que ela tem direito à cidadania, à existência».
No “contencioso” entre a Casa Branca e a Santa Sé, D. Valério viu «uma tentativa de reduzir toda a realidade, todas as perspetivas, a uma única dimensão política, como se nada mais existisse». Uma visão redutora que, recordou, já foi rejeitada pelo próprio Pontífice e pelo Cardeal Secretário de Estado Pietro Parolin: «Nós anunciamos o Evangelho. No nosso horizonte há um apelo à conversão, há o entusiasmo que queremos dar ao caminho de santidade. Libertemo-nos destes vínculos pelos quais tudo deve ser reconduzido à política». E acrescentou, quase como quem procura alargar o olhar: «Há muito mais vida para além da política».
O papel profético do Papa
A referência às recentes tensões é inevitável. Em abril, o presidente Trump tinha definido o Pontífice como «terrível em política externa», aludindo às tomadas de posição de Leão XIV sobre o Irão e a Venezuela, e exortara-o a «deixar de agradar à esquerda radical». «Não quero um Papa que pense que está bem que o Irão tenha uma arma nuclear», declarou o chefe da Casa Branca, chegando depois a partilhar nos seus canais sociais uma imagem, gerada por inteligência artificial, na qual ele próprio aparecia representado com as feições de Jesus Cristo.
A resposta do Santo Padre foi sóbria, mas firme: disse «não ter medo» do Governo norte-americano e sentir «um dever moral» de se pronunciar a favor da paz.
D. Valério leu o episódio numa chave claramente eclesial: «Cada pessoa olha com os óculos que tem e, de vez em quando, precisamos de alargar o nosso olhar para compreender que o pronunciamento de figuras proféticas, como é o caso do Papa Leão, está verdadeiramente orientado para a conversão, para a salvação da pessoa, para a promoção da sua dignidade».
Do magistério à atualidade portuguesa: o apelo pelos trabalhadores
Do horizonte internacional, o Patriarca deslocou o olhar para a situação nacional, em particular para a reforma laboral, cujas negociações terminaram na passada quinta-feira sem acordo entre o Governo e os parceiros sociais. Também aqui, o tom foi o do pastor que apela à responsabilidade partilhada.
«O ideal seria que houvesse pelo menos um consenso mínimo, mas sempre em nome do mesmo objetivo. E qual é esse objetivo que todos desejamos? É precisamente o de melhores condições para os trabalhadores», afirmou. Recordando que vem ele próprio de uma família de trabalhadores, reivindicou uma antiga sensibilidade pela questão salarial: «Ainda hoje, sinceramente, não compreendo por que razão um trabalhador português - pedreiro, mecânico, eletricista - não está ao mesmo nível salarial dos seus colegas espanhóis, franceses, alemães ou italianos, quando o nível de vida é semelhante. Verifiquei isso na Córsega, em Itália, em França, nas últimas semanas».
Uma constatação que o prelado definiu como «um dos grandes mistérios», exprimindo a esperança de que a nova lei laboral possa finalmente oferecer uma resposta. «Rezo para que sejam encontradas soluções para que, de facto, Portugal deixe de estar na situação em que se encontra agora, a de um país um pouco estagnado. E a emergência internacional não tolera estagnações».
A humildade como método da negociação
O Patriarca retomou então um convite que tem o tom de um apelo moral dirigido a todos os atores sociais: «Temos uma crise no horizonte que vai muito para além das nossas fronteiras. Daqui gostaria de lançar um convite a que nos unamos, a que demos um passo em nome de um acordo global, para que os problemas sejam resolvidos». O acordo, sublinhou, «deveria envolver todas as partes», e todos os parceiros são chamados a reconhecer que «através da negociação haja concessões para alcançar um bem maior». Palavras que evocam de perto o princípio católico da destinação universal dos bens e da primazia do bem comum sobre os interesses particulares.
«Num espírito de humildade, mas sobretudo com um interesse voltado não apenas para a classe dos trabalhadores, mas sobretudo para a economia e para o bem do nosso País, que exista verdadeiramente aquilo que toda a negociação exige de todas as partes, isto é, a humildade de ter de ceder onde for possível ou necessário ceder, sempre em nome de um bem maior», insistiu.
Interpelado sobre a eventualidade de a reforma ser aprovada sem o consenso mínimo dos representantes dos trabalhadores - hipótese levantada depois de o ministro do Trabalho ter denunciado a intransigência de um dos parceiros sociais, anunciando ainda assim a vontade do executivo de levar o texto ao Parlamento - D. Valério deixou cair uma pergunta que é, em si mesma, uma resposta: «Nesse caso, a pergunta que devemos fazer é em que condições essa lei será depois posta em prática».
Rumo a Fátima
Por detrás destas palavras, permanece o horizonte mariano da peregrinação iminente. Será precisamente em Fátima, diante da Virgem, que o Patriarca voltará a apresentar - desta vez sob a forma de oração - as mesmas exigências confiadas à palavra pública: a paz entre as nações, a dignidade do trabalho, a liberdade autêntica das consciências. Porque, como deixou entender ao longo de todo o encontro, a fé cristã nunca é instrumento do poder, mas serviço ao homem.
p.R.C.
Silere non possum