Brasília - A campanha eleitoral brasileira começou há dez dias e, também na Igreja Católica, multiplicam-se as intervenções sobre o voto do próximo mês de outubro. Na manhã desta quarta-feira, 26 de agosto de 2026, o site da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil publicou um artigo de dom Roberto Francisco Ferrería Paz, bispo de Campos, no estado do Rio de Janeiro, dedicado ao discernimento dos cristãos diante das urnas. O título escolhido pelo prelado já é indicativo: A serenidade, a lucidez necessárias para um discernimento cidadão e cristão nas eleições.
O Brasil irá às urnas em 4 de outubro para o primeiro turno das eleições gerais. Serão eleitos o presidente da República, os governadores, 54 senadores, 513 deputados federais e os membros das assembleias legislativas dos estados e do Distrito Federal. Um eventual segundo turno para presidente e governadores será realizado em 25 de outubro. A propaganda eleitoral está autorizada desde 16 de agosto, enquanto a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão terá início na próxima sexta-feira, 28 de agosto.
É nesta fase da campanha que Ferrería Paz intervém, pedindo aos eleitores católicos que não reduzam o voto à simples preferência por um nome. Segundo o bispo, nas eleições estão em jogo questões que dizem respeito à «democracia, soberania, vida e dignidade da pessoa» e ao próprio destino da «Casa Comum». O voto, observa, produz consequências que alcançarão também as próximas gerações.
A passagem sobre a democracia é particularmente clara. Ferrería Paz contrapõe a condição de quem vive numa democracia à de quem se torna um pária de direitos civis numa tirania. E amplia o conceito de soberania: integridade do território, equilíbrio ambiental, respeito às populações, direito a um desenvolvimento integral, solidário, sustentável e inclusivo para todos, paz e justiça. Não indica candidatos nem partidos e não apresenta ao leitor uma preferência eleitoral. Propõe, antes, os critérios a partir dos quais, segundo ele, deveria amadurecer a escolha de um cristão.
Entre esses critérios está a defesa dos direitos humanos e da dignidade da pessoa, com uma referência a Magnifica Humanitas, a encíclica publicada por Leão XIV em 15 de maio sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. O documento pontifício dedica uma parte considerável aos princípios da doutrina social da Igreja, da dignidade de cada ser humano ao bem comum, da destinação universal dos bens ao cuidado com a Casa Comum e à paz.
O bispo de Campos passa então dos princípios ao discernimento concreto sobre os candidatos. Pede que sejam analisados cuidadosamente seus pronunciamentos, programas de governo e plataformas partidárias. No caso daqueles que aspiram à reeleição, convida também a examinar suas gestões: as leis aprovadas, as obras realizadas, os resultados alcançados e a fidelidade aos valores humanos e cristãos que, segundo ele, pautam a sociedade brasileira e sua Constituição.
Não se trata de um apelo isolado no panorama eclesial destas semanas. Em 20 de agosto, o Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara, juntamente com outras entidades católicas, apresentou o segundo caderno do projeto Encantar a Política, dedicado justamente às eleições gerais de 2026. O material convida comunidades, pastorais e movimentos a compreender o voto como uma escolha que envolve projetos de sociedade, políticas públicas e prioridades do país, e propõe avaliar a trajetória dos candidatos, suas filiações políticas, suas propostas e sua coerência ética. Participam do projeto, entre outros, o Conselho Nacional do Laicato do Brasil, a Comissão Brasileira Justiça e Paz e o CEFEP.
Em seu texto, porém, Ferrería Paz recupera sobretudo uma memória interna da Igreja brasileira: a Campanha da Fraternidade de 1996, dedicada a «Fraternidade e Política» e acompanhada pelo lema do Salmo 84, «Justiça e Paz se abraçarão». Trinta anos depois daquela iniciativa, o bispo retoma seu objetivo geral: contribuir para a formação política dos cristãos, para que exerçam sua cidadania como sujeitos da construção de uma sociedade justa e solidária.
Aquela Campanha da Fraternidade também propunha ampliar o conceito de política para além dos processos eleitorais, oferecer elementos para um novo exercício da política a partir dos pobres e excluídos, incentivar as pessoas a se tornarem sujeitos da ação política na promoção do bem comum, esclarecer a ligação da política com o cotidiano das relações familiares, comunitárias e eclesiais e estimular práticas políticas e o exercício de cargos públicos revendo permanentemente o uso do poder como serviço e não como dominação.
Há ainda um ponto sobre o qual Ferrería Paz insiste e que diz respeito diretamente a quem exerce responsabilidades públicas. Para orientar o discernimento, o bispo recupera dois critérios presentes na reflexão cristã: da tradição tomista, a vivência da virtude cardeal da justiça por parte dos governantes; da tradição agostiniana, a perspectiva da transformação das estruturas na direção do Reino e de sua consumação escatológica.
Dom Ferrería Paz, nascido em Montevidéu em 1953 e cidadão brasileiro há muitos anos, está à frente da diocese de Campos desde julho de 2011. Sua formação inclui, além dos estudos filosóficos e teológicos, mestrado em direito canônico e estudos em bioética. Em seus textos publicados ao longo dos anos pela CNBB, voltou diversas vezes aos temas da cidadania, da responsabilidade política e do bem comum.
Sua intervenção de hoje conserva, contudo, o caráter de uma contribuição pessoal do bispo: a publicação no portal da CNBB não equivale a um pronunciamento colegial do episcopado brasileiro. É uma distinção necessária, sobretudo quando a campanha eleitoral entra numa fase mais intensa e as palavras dos pastores podem ser rapidamente utilizadas no confronto entre os diferentes campos políticos.
Ferrería Paz evita, de fato, referências diretas aos protagonistas da disputa. Sua última indicação diz respeito ao resultado que, segundo ele, deveria orientar o voto de um cristão: ajudar a gerar e desenvolver «processos de paz, unidade e reconciliação» tão necessários à boa convivência e à tranquilidade da nação brasileira. Um apelo formulado enquanto candidatos e partidos já iniciaram oficialmente a corrida que levará o país às urnas em 4 de outubro.



